Sim, por favor
Não, obrigado
Sobre a Igreja
donate Books CDs HOME updates search contact

A Santa Missa – Parte IV

Mudanças lentas e graduais abrem caminho
para a Nova Missa

Dr. Remi Amelunxen
A Constituição Sacrosanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II, foi oficialmente ratificada e promulgada pelo Papa Paulo VI em 4 de dezembro de 1963. Dos 16 documentos conciliares, este, referente à Missa, teve alta prioridade; foi o primeiro documento a ser discutido e aprovado pelo Concílio em 14 de novembro de 1962. (1) Mudanças ocorreram na liturgia em um processo gradual, de 1963 até a introdução do Novus Ordo em 1969.

Este artigo apresentará um breve resumo de como os liturgistas progressistas destruíram lentamente o próprio coração da Igreja, que é a Missa.

Jungmann

Jungmann, à direita, garantiu aos Bispos que seriam tomados os devidos cuidados para preservar a missa tradicional

A Sacrosanctum Concilium (SC) recebeu aprovação quase unânime dos Bispos do Concílio. Embora alguns Bispos tenham expressado reservas, o relator Josef Jungmann respondeu dizendo que “estavam sendo tomados os devidos cuidados para preservar a substância dos ritos” (probe servata eorum substantia). (2)

Seguem alguns excertos da Sancrosanctum Concilium que abrem caminho para mudanças: (3)
  1. Preparando o caminho para uma nova simplicidade litúrgica: “Na revisão da liturgia, devem ser observadas as seguintes normas gerais: Os ritos devem distinguir-se por uma nobre simplicidade; devem ser breves, claros e desprovidos de repetições inúteis; devem estar ao alcance da compreensão do povo e, normalmente, não devem exigir muitas explicações.” (SC 34)

  2. Exaltação das Escrituras para agradar aos protestantes: “Para que a íntima conexão entre palavras e ritos seja aparente na liturgia, nas celebrações sagradas deve haver mais leituras das Sagradas Escrituras, e estas devem ser mais variadas e adequadas.” (SC 35)

  3. Incentivar o uso da língua vernácula: Visto que o uso da língua materna, seja na Missa, na administração dos sacramentos ou em outras partes da liturgia, pode frequentemente ser de grande vantagem para o povo, os limites de seu emprego podem ser ampliados.” (SC 36)
Essas foram algumas das diretrizes usadas para suprimir a Sagrada Tradição e alterar a Missa Tridentina, que, como observado em outro artigo, é quase idêntica ao Sacramentário Gregoriano do Papa Gregório Magno, datado de 600 d.C. Além disso, essa Missa Latina possuía pronunciamentos infalíveis de fide do Concílio de Florença (1441), do Concílio de Trento (1545-1563) e da Bula Quo primum tempore (1570) do Papa São Pio V.

Uma comissão, um motu proprio e um decreto

Para lidar com a implementação prática da Constituição aprovada sobre a liturgia, Paulo VI criou uma nova comissão, o Consilium ou Comissão Pontifícia para a Aplicação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia, em 25 de janeiro de 1964. Era presidida pelo Padre Annibale Bugnini e incluía seis ministros-consultores protestantes.

Na mesma data, foi promulgado o motu proprio Sacram Liturgiam. Este menciona o Consilium como um veículo “para revisar os ritos” e “preparar novos livros litúrgicos” ao longo de um longo período de tempo. Essa estratégia para ganhar tempo acalmou a reação dos Bispos conservadores relutantes à mudança; ao mesmo tempo, encorajou os progressistas impacientes e ansiosos por reformas.

Tridentine Mass

O Concílio foi gradualmente alterando a Missa Romana, inicialmente mantendo alguns símbolos e pompa, abaixo ...

Mass 2

... mas em pouco tempo, tudo passou a ser permitido, como se pode ver abaixo em uma missa ao ar livre na década de 1970

Mass 3
Não obstante, os Bispos alemães e franceses tenham protestado veementemente que o motu proprio impedia suas tentativas locais de traduzir a liturgia para a língua vernácula. Bugnini propôs uma série de emendas, estabelecendo uma comissão de especialistas para cada idioma que faria a tradução, a qual seria então submetida à Santa Sé para confirmação. (4)

Os conservadores cederam a essa solução “moderada.” Esse tipo de rendição tornou-se a regra à medida que a reforma litúrgica progredia.

Em 26 de setembro de 1964, a Instrução Inter Oecumenici, sobre a Correta Implementação da Constituição da Sagrada Liturgia foi promulgada pela Sagrada Congregação dos Ritos. Essa instrução estabelecia “adaptações” a serem praticadas antes da revisão dos livros litúrgicos.

Ela introduziu mudanças significativas na liturgia existente, com o objetivo declarado de “aumentar a participação plena e ativa (5) e tornar os ritos litúrgicos, especialmente a Missa, mais claros e mais bem compreendidos.” Essas mudanças incluíam:
  1. Toda a Missa, com exceção do Prefácio e do Cânon, deverá ser dita na língua vernácula;

  2. As leituras são feitas de frente para o público e lidas por um leigo;

  3. Remoção da inscrição “Judica me” durante as orações aos pés do altar;

  4. A oração dos fiéis pode ser introduzida após o Credo;

  5. O celebrante e a congregação recitam juntos o Pater Noster;

  6. As palavras abreviadas “Corpus Christi” [Corpo de Cristo] são ditas pelo sacerdote ao distribuir a Sagrada Comunhão, e o comungante responde com “Amém.”

  7. A omissão do Último Evangelho de São João e a oração acrescentada por Leão XIII. (6)
Essas mudanças foram sutis, fazendo com que a Missa parecesse diferente, mas não o suficiente para causar alarme. Também passaram despercebidas as mudanças drásticas feitas em outros ritos sacramentais. Esta instrução representa um passo decisivo na Revolução Litúrgica e deu sinal verde para a continuidade das mudanças litúrgicas, que encontraram pouca ou nenhuma resistência por parte do clero ou dos leigos.

As mudanças continuaram

As mudanças na liturgia continuaram a ocorrer, uma após a outra, com pouca ou nenhuma manifestação de protesto por parte do clero ou dos fiéis em geral, que já estavam acostumados com essas “adaptações” determinadas pelo Vaticano II e promulgadas em nome de Paulo VI.

Um novo rito para a concelebração foi proposto na Constituição sobre a Liturgia do Concílio (SC 58). Em 7 de março de 1965, foi publicado o decreto Ecclesiae semper que introduziu a concelebração da Missa e a comunhão sob as duas espécies. Apresentou também um novo conceito da Missa “como uma atividade que pertence a todo o povo de Deus.” (7)

Também em 1965, a “pedido urgente de algumas Conferências Episcopais,” (8) Paulo VI autorizou que o Prefácio da Missa fosse dito na língua vernácula; apenas o Cânon tinha então de ser dito em latim.

participation in the Mass

Uma instrução sobre música sacra incentiva a participação ativa no canto durante a missa

Em 25 de setembro de 1965, a Carta De Missa vespere sabbati da Congregação dos Ritos formalizou a prática de substituir a Missa dominical pela Missa vespertina de sábado.

Dois anos após o encerramento do Concílio Vaticano II, as normas gerais da Instrução Musicam Sacram, de 5 de março de 1967, incentivaram a participação ativa do povo no canto, rejeitando o uso estrito do canto gregoriano e da música tradicional. Não demorou muito para que essa instrução fosse interpretada como permissão oficial para o canto de música folclórica e popular na Missa. Hoje, como se sabe, tudo é permitido...

Em 4 de maio de 1967, a instrução Tres abhinc annos permitiu o uso da língua vernácula em toda a Missa, incluindo o Cânon, e prescreveu que fosse recitado em voz alta. O uso do manípulo tornou-se opcional e a casula pôde substituir a capa pluvial.

Os leigos foram proibidos de ajoelhar no “Incarnatus est” e o celebrante não podia mais fazer as três importantes genuflexões na elevação da Hóstia e do Vinho consagrados. Somente após a elevação ele podia ajoelhar. Todos os sete Sinais da Cruz, do Quam oblationem à Consagração, foram abolidos. (9) Isso representou um ataque aos sinais sagrados e gestos de reverência na Missa Tridentina.

A lista de mutilações na Missa Tridentina é, de fato, longa. O fato de essa instrução ter encontrado pouca resistência indicava que não se devia temer uma oposição em larga escala quando as novas orações eucarísticas e o Novus Ordo Missae surgissem.

Como declarou extasiado o então Arcebispo Annibale Bugnini: “O novo cântico começou e não cessará.” (10)

As novas orações Eucarísticas

Os Bispos americanos estavam bem condicionados a acatar tudo o que a Comissão Internacional para a Liturgia Inglesa (ICEL) considerasse apropriado. Em 23 de maio de 1968, foi promulgado o decreto Preces Eucharisticae que introduziu três novas orações Eucarísticas, ou supostos cânones, juntamente com o antigo Cânon Romano, que foi mantido como Oração Eucarística n.º 1. A partir de então, existem quatro opções de “cânones,” e cada Conferência Episcopal ao redor do mundo pode escolher qual delas será recitada nas Missas sob sua jurisdição.

vernacular mass

Uma Missa vernácula celebrada na Irlanda em 1965 - ainda com elementos tradicionalistas que em breve desapareceriam

Mons. Bugnini estava entusiasmado com esses três novos cânones e os elogiou como “os primeiros versos deste novo cântico.” (11) O trio poderia ser mais bem denominado “o Réquiem para o Rito Romano.” De fato, abriu-se um mercado atacadista de orações eucarísticas, com mais de 13 aprovadas hoje por Roma para uso somente nos Estados Unidos. (12)

Por cerca de 1600 anos, o rito romano conhecia apenas uma Oração Eucarística, o Cânon Romano. Essas adições marcaram uma mudança radical na Liturgia Romana. Com o tempo, a Oração Eucarística II, mais curta, tornou-se a mais usada, inclusive aos domingos. A primeira Oração Eucarística, que é a tradicional com algumas alterações, quase nunca é usada.

Chegara o momento oportuno para a introdução do Novus Ordo Missae completo. O que isso representou para a destruição da Missa Tridentina será tratado no próximo artigo.

Continua

  1. Atila S. Guimarães, Nas águas turvas do Vaticano II, Maeta: 1999, p. 217.
  2. Pe. Cassian Folsom, O.S.B., “De uma oração eucarística para muitas: como aconteceu e por quê,” Adoremus, nn. 4-6, Set-Nov 1996
  3. Guimarães apresenta uma lista mais completa de textos do Concílio Vaticano II que, devido à sua linguagem ambígua, abrem caminho para a mudança na Missa e facilitam o ecumenismo, em Nas águas turvas do Vaticano II, pp. 218-220.
  4. Mons. Piero Marini, Uma Reforma Desafiadora: Concretizando a Visão da Renovação Litúrgica, 1963-1975, Collegeville, MN: Liturgical Press, 2007, pp. 15-29
  5. A participação ativa na liturgia por meio da Missa dialogada antes e depois do Vaticano II é discutida detalhadamente pela Dra. Carol Byrne em uma série de excelentes artigos publicados no site da TIA (aqui). Ela mostra o longo e constante caminho rumo à Nova Missa, que começou no início do século XX com os promotores do movimento litúrgico na Bélgica liderados por Dom Lambert Beauduin. Esse Movimento Litúrgico ganhou impulso sob os pontificados de Pio XI e Pio XII, que efetivamente prepararam o terreno para o Vaticano II ao apoiarem o Pe. Annibale Bugnini e promoverem mudanças na liturgia da Semana Santa em 1955.
  6. James F. White, Culto Católico Romano: De Trento aos Dias de Hoje, Liturgical Press, 2003, p. 131
  7. Documentos Litúrgicos: Documentos Suplementares para o Culto Paroquial, Devoções, Formação e Catequese, Liturgy Training Pub, 2013, pp. 196-197
  8. Card. Francis Arinze, “Latim e Vernáculo: A linguagem na liturgia romana,” discurso de abertura na Conferência Litúrgica Gateway, St. Louis, Missouri, 11 de novembro de 2006.
  9. Pe. Paul Trinchard e Dr. Remi Amelunxen, Nova Missa à Luz da Antiga, Marian Pub, 1995, pp.22-26.
  10. Ibid.
  11. Ibid.
  12. No Sacramentário, existem nove orações, incluindo as quatro orações eucarísticas universais, três para crianças e duas para Missas de Reconciliação, acrescentadas em 1974. Outras quatro, incluídas no cânone suíço e acrescentadas em 1994, são chamadas: A Igreja a Caminho da Unidade, Deus Guia a Igreja no Caminho da Salvação, Jesus a Caminho do Pai e Jesus, a Compaixão de Deus.
Compartilhe

Blason de Charlemagne
Siga-nos



Postado em 11 de outubro de 2024